25.10.13

16.10.13

XLVI (O homem e os gatos)



  “Fartaremo-nos hoje, mesmo se não tivermos nada para amanhã. Depois nos alimentaremos da fome e prometeremos sermos a prudência em pessoa.” – esse era o lema do velho debilitado em uma cama dura, lancinando seus últimos suspiros.
  Sim, teve um tempo em que teve bastante dinheiro e, por conseguinte, bastante respeito também. A mesma vida que lhe deu de berço um lugar pobre e baldinhos para tomar banho, então lhe dera a chance de saborear o alívio por ser alguém, um tenor com qualidades anti-heroicas. – Sim, o tempo mostrou que ele foi um anti-herói, com todas as quimeras e quedas de um anti-herói. – Sua sorte intra uterina tinha finalmente se apresentado à luz, e a mísera criança dissonante passou a ser um rei de uma noite para a outra, alagando os sertões com sua voz – a mesma voz que um dia lamentou-se por existir.
  Mesmo se pudéssemos viver cada segundo de nossa vida, cada efemeridade nos perturbaria de uma forma ou de outra. Assim como ele tocou a glória repentinamente, da mesma maneira ele afogou-se no ostracismo, ou melhor, ele cavou sua própria cova com todos os cuidados possíveis.
  “Deve-se entender que não é possível comprar as pessoas, apenas aluga-las por certo tempo.” – Atualmente a vida familiar não passa de interesses maculados, assim aconteceu com esse personagem atemporal – quando ele tinha o dinheiro, seus filhos e mulheres o amavam; quando perdeu o dinheiro, consequentemente perdeu tudo, até porque ele fez do dinheiro a base de todas as suas relações. No seu auge, ele comprava qualquer coisa para as pessoas e humilhava qualquer pessoa; e assim ele galgou em sua queda, adornando-se com as teias da escuridão; ele foi perdendo coisa por coisa: fama, dinheiro, filhos, saúde e por fim seu carro.
  Sendo chutado numa casa suja; quem era um rei tornou-se num escravo do fracasso, transpassado por seus próprios erros. E ele acabou com suas pernas e suas mente, e está deitado por anos; e aí então, vez ele abdicou da malícia e passou a viver com vinte e um gatos sem pedir nada em troca, apenas deliciando-se com os arranhões.
  E enquanto existir o vento, ele se fartará com resignação.

XLV (Apaixonados)



  Valdecir era um pai intransigente, por vezes um ditador dentro de sua casa; dava as horas em que sua esposa, a Cici, poderia sair e a que tinha de voltar... Possuía a natureza de um inspetor de internato para menina, amava a ordem, e por vezes, amava o progresso também.
  Porém sua filha Margot era a única que ele não tinha a coragem dar ordens. Era estranho, ele sabia disso, no fundo de sua alma algo o inibia de mandar em Margot, e até o amedrontava quando estava em frente à sua filha. Às vezes a menina fazia o pai de gato e sapato, como quando tinha doze anos e foi à rua para dar o seu primeiro selinho; na volta à casa, o pai perguntou onde ela estava, Margot passou direto, nada respondeu e se trancou em seu quarto ainda em êxtase com o beijo.
  Um belo dia aconteceu algo que nenhum dos três ali esperava. Não se sabe de onde Valdecir tirou coragem e conseguiu dar cabo de suas palavras. O caso é o seguinte: há duas semanas, na mesa de jantar, Valdecir fez a seguinte insinuação à Margot:
- Margot, você já está com vinte-e-três anos, minha filha. Precisa arranjar um marido, não quero que você seja uma solteirona como sua prima Lúcia.
- Hum?! Pai, não quero me casar! – Margot berrou por causa do susto.
- Então hei de arranjar um bom marido para você! – retrucou Valdecir com uma coragem que ele não sabia que possuía; talvez não possuísse, algo baixou sobre ele.
- Duvido, eu duvido! – palavras audaciosas e cruéis para os ouvidos de Valdecir.
Sentindo-se afrontado, Valdecir tinha que honrar suas calças, e então escolheu Rodolfo, um amigo que conheceu através de um primo; bom rapaz, possuía um emprego na Cedae, ganhava medianamente bem. Margot, pega de surpresa, não quis aceitar de inicio, porém gostou um pouco de Rodolfo e, principalmente, não queria fazer força opositora ao pai; tinha a certeza que após o casamento passaria a amar Rodolfo, por enquanto apenas o achava bonito.
  Foram uma semana de namoro e quatro meses de noivado, Margot já estava disposta a se casar de bom grado; e Cici gostava muito do rapaz, Valdecir mais ainda – os dois iam juntos aos jogos do Vasco, jogavam baralho no bar da esquina, conversavam horas a fio etc. Margot gostava muito da proximidade entre o pai e o futuro marido, achava que tinha tirado a sorte grande.
  Então os dois se casaram, foram passar a lua-de-mel em Cabo frio numa pousada onde Valdecir podia pagar. Tiveram sua noite de núpcias, a lua-de-mel foi incrível; apenas uma fato chamou a atenção de Margot. No sexto dia de lua-de-mel, Rodolfo disse que sentia saudades do pai de sua esposa... “É bobagem” – pensava Margot, e logo depois esqueceu o fato.
  Após dois meses de casados a vida estava muito boa para o casal, Margot não se arrependia em nada, Rodolfo era muito carinhoso para com ela. Porém, Rodolfo passava cada vez mais tempo com Valdecir; o que, de certa forma, Margot era um pouco contrário:
- Você vê mamãe... Rodolfo passa horas e horas todos os dias com papai, quero ele sempre perto de mim! – Queixava-se Margot com Cici.
- Minha filha, homem bom é homem que fica na rua, assim não fica em casa perturbando e sujando. E é muito boa essa amizade entre seu pai e Rodolfo, isso é raro no mundo de hoje.
- Mas mamãe, não pode ser tanto assim, nem tanto ao sol nem tanto ao mar. Ela sai do trabalho às seis e só volta às nove, fica batendo papo com papai. Para você saber, nem todo dia ele quer fazer sexo comigo.
- Deixa de Bobagem, Margot!
  Enquanto isso Rodolfo e Valdecir assistiam à novela das sete num hotel barato no centro, os dois enrolados em toalhas. Valdecir tasca um beijo na boca de Rodolfo, de maneira ultrarromântica, como um casal recém-casado; e olhando nos olhos do parceiro, diz com ternura:
- Minha filha nunca vai saber! Não pode! Eu te amo! – e dava cada vez mais beijos apaixonados em Rodolfo, e então os dois foram rolando, um enrolado no outro, pelo chão daquele quarto.
  Assim os três eram felizes, e seriam ainda mais com o passar do tempo... Até que a morte do pai os separassem.